Tecnologia

Google e Marvell: acordo de até US$ 120 bilhões revela o tamanho da corrida pela IA

Google amplia parceria com a Marvell em um acordo que pode envolver até US$ 120 bilhões em receitas com semicondutores customizados até 2033 e reforça uma nova fase da corrida global pela infraestrutura de Inteligência Artificial.

Google e Marvell: acordo de até US$ 120 bilhões revela o tamanho da corrida pela IA

Google e Marvell ampliam parceria na corrida pela Inteligência Artificial

A corrida global pela Inteligência Artificial está entrando em uma fase na qual desenvolver os melhores modelos é apenas uma parte da disputa. Google e Marvell Technology ampliaram sua parceria para o desenvolvimento e fornecimento de semicondutores customizados ligados à infraestrutura de IA da big tech, em uma operação cuja escala potencial ajuda a dimensionar o tamanho do mercado que está sendo construído ao redor da tecnologia. Pelo acordo, o Google recebeu o direito de adquirir até 58,97 milhões de ações da Marvell por US$ 206,58 cada, representando um valor potencial de aproximadamente US$ 12,2 bilhões. A maior parte desse direito, porém, está condicionada ao volume de compras realizadas pelo Google até o fim do ano fiscal de 2033.

Para que toda a parcela vinculada às compras seja liberada, a Marvell precisaria alcançar US$ 120 bilhões em receitas provenientes dos produtos customizados relacionados ao acordo. É importante destacar que esse valor não representa uma encomenda já contratada pelo Google, mas um teto associado às condições estabelecidas para a operação. Ainda assim, a dimensão financeira revela o nível de investimento esperado para uma infraestrutura que se tornou estratégica para Google, Microsoft, Meta, Amazon, OpenAI e praticamente todas as grandes empresas envolvidas na corrida pela Inteligência Artificial.

TPUs do Google ganham importância estratégica

A parceria envolve diferentes programas de chips customizados relacionados às Tensor Processing Units, conhecidas como TPUs. Desenvolvidos pelo próprio Google, esses processadores foram projetados especialmente para cargas computacionais relacionadas à Inteligência Artificial e ganharam importância conforme modelos generativos passaram a exigir volumes cada vez maiores de processamento.

Entre os projetos envolvendo a Marvell estão aceleradores destinados à inferência de IA, controladores de armazenamento, interfaces de rede e memória, além de soluções de computação próxima à memória. A estratégia mostra que o Google não está preocupado apenas em desenvolver modelos como o Gemini. A companhia também está fortalecendo a infraestrutura necessária para treinar, executar e distribuir aplicações de Inteligência Artificial em grande escala.

Essa movimentação também permite ao Google diversificar sua cadeia de fornecedores. A Broadcom já participa do desenvolvimento e fornecimento das TPUs e possui um acordo de longo prazo envolvendo futuras gerações dos processadores e outros componentes de infraestrutura. A entrada da Marvell amplia essa rede e reduz a dependência de um único fornecedor em um momento de forte crescimento da demanda mundial por capacidade computacional.

A batalha da IA também acontece nos chips e data centers

Durante os primeiros anos da explosão da Inteligência Artificial generativa, grande parte da atenção ficou concentrada nos modelos. ChatGPT, Gemini, Claude e outras plataformas se tornaram a face mais visível dessa transformação. Entretanto, existe uma infraestrutura gigantesca operando nos bastidores para que essas tecnologias funcionem.

Chips especializados, data centers, redes de alta velocidade, sistemas de armazenamento, energia e capacidade de processamento se tornaram ativos estratégicos. Quanto maior a utilização da Inteligência Artificial, maior também é a necessidade dessa infraestrutura. É por isso que fabricantes de semicondutores estão ocupando uma posição central na nova economia da IA.

A própria Marvell demonstra essa transformação. No primeiro trimestre de seu ano fiscal de 2027, a companhia registrou receita recorde de US$ 2,42 bilhões, crescimento de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desse total, aproximadamente US$ 1,83 bilhão veio da divisão de data centers, representando cerca de 76% da receita da empresa no período. O avanço evidencia como a expansão da Inteligência Artificial está modificando profundamente o mercado global de infraestrutura tecnológica.

Alphabet prevê investir até US$ 205 bilhões em 2026

A dimensão dessa corrida fica ainda mais evidente quando são analisados os investimentos planejados pela Alphabet, controladora do Google. A companhia elevou sua previsão de investimentos de capital para 2026 para uma faixa entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões. Apenas no segundo trimestre, foram aproximadamente US$ 44,9 bilhões destinados a investimentos, com parcela significativa direcionada à infraestrutura técnica necessária para sustentar a expansão da Inteligência Artificial.

Esses números ajudam a explicar por que a disputa pela IA deixou de ser apenas uma corrida por software. As maiores empresas de tecnologia do mundo estão construindo uma nova camada de infraestrutura computacional capaz de sustentar milhões de aplicações, agentes inteligentes e sistemas automatizados.

Quem controlar uma parcela relevante dessa infraestrutura poderá conquistar vantagens importantes em custo, velocidade, capacidade de processamento e disponibilidade tecnológica. Em outras palavras, a corrida pela Inteligência Artificial também está se transformando em uma corrida por eficiência operacional.

Google começa a transformar suas TPUs em um negócio

Existe outro movimento estratégico acontecendo dentro do Google. As TPUs foram originalmente desenvolvidas para atender às próprias necessidades computacionais da empresa, mas estão começando a assumir um papel comercial mais relevante. Sistemas baseados nesses processadores começam a chegar à infraestrutura de clientes, ampliando a competição em um mercado historicamente dominado pelas GPUs da Nvidia.

Essa transformação é importante porque chips customizados podem ser desenvolvidos para cargas específicas de trabalho, permitindo ganhos de eficiência e redução de custos em determinadas aplicações de Inteligência Artificial. Para empresas que operam modelos em grande escala, pequenas melhorias de eficiência podem representar economias significativas quando multiplicadas por bilhões de operações computacionais.

O Google, portanto, não está apenas investindo para consumir mais Inteligência Artificial. A companhia está construindo infraestrutura para se tornar uma das principais fornecedoras da próxima geração de computação baseada em IA.

O que o acordo entre Google e Marvell ensina sobre o futuro dos negócios

Embora cifras de US$ 120 bilhões pareçam distantes da realidade da maioria das empresas, existe uma mudança estratégica por trás desse movimento que interessa a praticamente qualquer negócio. A Inteligência Artificial está deixando a fase experimental e entrando em uma etapa de industrialização.

Nos últimos anos, milhares de empresas começaram a testar ferramentas de IA. Chatbots, geração de conteúdo, automações e assistentes inteligentes rapidamente entraram na rotina corporativa. O próximo estágio, entretanto, é muito mais profundo: integrar Inteligência Artificial diretamente aos processos que fazem uma empresa funcionar.

Isso significa conectar IA a atendimento, vendas, CRM, análise de dados, gestão da informação, relacionamento com clientes e tomada de decisão. Quando essa integração acontece, a tecnologia deixa de funcionar como ferramenta isolada e passa a fazer parte da própria infraestrutura operacional do negócio.

Usar Inteligência Artificial é diferente de operar com Inteligência Artificial

Existe uma diferença significativa entre uma empresa que utiliza ferramentas de IA e uma organização estruturada para operar com Inteligência Artificial. A primeira pode utilizar diferentes plataformas para executar tarefas específicas. A segunda integra tecnologia, processos, dados e pessoas dentro de uma operação preparada para gerar eficiência continuamente.

Na área comercial, por exemplo, um CRM integrado à Inteligência Artificial pode centralizar informações, organizar oportunidades, automatizar tarefas, identificar padrões de comportamento e oferecer mais inteligência para vendedores e gestores. Agentes de IA podem assumir etapas repetitivas do atendimento, responder clientes com maior velocidade e manter operações funcionando mesmo fora do horário comercial.

O resultado não está simplesmente em substituir trabalho humano. O ganho acontece quando a tecnologia elimina tarefas de baixo valor e permite que profissionais concentrem energia em negociação, relacionamento, estratégia e tomada de decisão.

A próxima vantagem competitiva será operacional

O acordo entre Google e Marvell ajuda a revelar algo maior sobre a transformação provocada pela Inteligência Artificial. As empresas que liderarem essa nova economia provavelmente não serão apenas aquelas que tiverem acesso aos melhores modelos, porque grande parte dessas tecnologias estará disponível para milhares de organizações. A vantagem competitiva estará cada vez mais na capacidade de integrar IA à operação.

Google está investindo bilhões para controlar melhor sua infraestrutura, aumentar eficiência e reduzir dependências. Em uma escala completamente diferente, empresas tradicionais precisam começar a fazer a mesma reflexão sobre suas próprias operações. Onde existem processos manuais que poderiam ser automatizados? Quantas informações comerciais permanecem espalhadas entre WhatsApp, planilhas e sistemas desconectados? Quanto tempo vendedores ainda gastam executando tarefas que poderiam ser realizadas automaticamente?

A Inteligência Artificial começa a criar uma divisão entre empresas que apenas utilizam novas ferramentas e aquelas que estão redesenhando suas operações para funcionar com elas. A corrida bilionária entre Google, Marvell e outras gigantes mostra o tamanho da transformação em andamento. Para o restante do mercado, a questão estratégica já não é mais se a IA será utilizada, mas como ela será integrada aos processos para gerar eficiência, inteligência comercial e crescimento real.

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